quarta-feira, 27 de julho de 2016

A Dança da Fogueira

      Um homem começou por acender a Fogueira, foi ele que começou!

Esse homem, pioneiro, Líder, começou a dançar. Dançava à volta da Fogueira enquanto a sua música entoava sobre tudo o que existia naquele pequeno universo limitado à volta da Fogueira. Tudo se centrava ali, era como se a Fogueira fosse o centro de toda a existência, não havia mais luz senão a que a Fogueira emitia. A sua luz intervalava-se, era debilitada, proporcionando uma cor acastanhada a tudo o que existia, no chão de lama, em todo aquele, acampamento? Era decerto a Fogueira o centro da existência!

A sua cor revelava-se amarelada, por vezes vermelha, nunca cores fortes, sempre claras! O Líder conservava a música e a Fogueira. Tudo parecia aliciante, todos se juntavam à sua volta e em redor da Fogueira e dançavam a sua dança como se não houvesse mais vida.

A dança do líder, a música, a luz, tudo atraía cegamente! Todos dançavam em torno da Fogueira, caminhavam em círculos em redor dela, alguns ousavam entoar a música, tudo era belo, tudo era perfeito, tudo era harmonia.
O conjunto conformava-se, a dança do Líder era a ação, a sua Fogueira, era a existência decerto! O Líder cumprira a sua obra, agora, apenas harmonizava. Cego pelo seu poder, marionetista, coordenava a sintonia à volta da Fogueira a seu bel-prazer. Seus seguidores mais fieis poderiam agora segui-lo na coordenação. No fundo, ficavam de lado e fora da Fogueira, observando atentamente a sua chama, ouvindo a música que por entre todo o conjunto entoava, e mirando os dançarinos em torno da chama.

Ouve então discórdia, um novo grupo se formou. Esta pequena associação discordava (aleatoriamente) da forma como a dança era feita, achavam que no quinto movimento da coreografia da dança, se devia estalar os dedos em vez de bater uma palma, achavam que o segundo tempo do quinto compasso da música devia ser um dó em vez de um ré. O novo grupo tinha certas ideologias que pouca diferença faziam, no entanto, os dançarinos em redor da Fogueira, achavam que tais diferenças seriam uma excelente inovação, dando assim o controle da Fogueira ao novo grupo, o velho grupo fez então oposição.

Enquanto a bela música entoava, o som dos tambores que tremiam os nossos vivos corações, os acordes dos banjos, os sopros das flautas de osso, a música era bela em todo o seu ser. Mas enquanto entoava, a harmonia era posta em causa: O velho grupo discutia com o novo grupo, os dançarinos iam concordando com as novas ideias, com as oposições, havia até dançarinos que se limitavam a prosseguir com a sua dança, como se nada mais houvesse, ausentes das logísticas da Fogueira, e quanto mais se debatia, mais a harmonia alcançada era posta em causa. Certos acordes começavam a falhar, certos passos da dança eram realizados de forma errónea, a chama ia enfraquecendo e, devido aos debates, não era, por vezes, reforçada. Tudo estava a desmoronar-se.

Era de esperar que fosse nesta altura que os dançarinos em redor da chama se manifestassem, que escolhessem um bom líder; incorruptível pelo poder das cordas que prendem as marionetas; um líder que se preocupasse em fazer única e exclusivamente, o bem para todos, não só das pessoas, mas também o bem pela harmonia da Fogueira, a chama, a vida, a existência generalizada de toda a existência deste universo… de tudo!


No entanto as pessoas não souberam escolher, continuavam a apontar estes dois líderes limitados destes dois grupos que pouca diferença faziam entre si, e quando um dos líderes se cansava, os dançarinos permaneciam no seu fraco ponto de vista sobre a Fogueira, nas suas ideias centradas, e apontavam um novo Líder, igual ao seu antecessor. A dança continuava a causar desconforto, harmonia era escassa, mas nunca um líder nomeado conseguia repor a concórdia como outrora fora, por obra apenas do acaso de ser pioneiro. Nunca mais se voltou a atingir o objetivo inicial, a chama mudara, o seu sangue era agora negro, a luz desvanecera. Havia quem soubesse a cura, tinham a solução, mas não tinham a oportunidade de a demonstrar, não eram ouvidos, era-lhes dado pouco espaço de manobra pois os líderes não queriam passar o poder para um ser sensato, o comando da Fogueira corrompia-lhes o espírito de tal forma que se esqueceram de porque o faziam, para quem o faziam, e com que objetivo, assim como olvidaram certos sentimentos, certos cheiros, certos sabores. E apesar de tudo, enquanto a Fogueira piorava a cada dia, quando um líder perdia a credibilidade, uma réplica era nomeada, e os verdadeiros eruditos perduravam na sua consciência de saber a cura, mas sem mãos para a aplicar, mãos cortadas pelos dançarinos e pelas elites e líderes.

A luz desvanecera, a chama era negra, a dança perdera o sentido.
Até que a fogueira se extinguiu.

 

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